Além disso, enfrento diariamente uma pressão interior, a saber, a minha preocupação com todas as igrejas.    

2 Coríntios 11:28

Amados irmãos e irmãs, graça e paz da parte de nosso Senhor Jesus Cristo vos sejam multiplicadas!

Venho novamente até vocês para apresentar uma palavra de reflexão sobre um dos aspectos da conduta cristã. Nesta sétima “Mensagem do Presidente”, julgo ser oportuno um olhar mais detido e aprofundado sobre o poder da língua e seu alcance na comunidade dos salvos.

De proêmio, mostra-se relevante mencionar que o vocábulo “língua” é polissêmico, ou seja, comporta diferentes sentidos conforme seja o contexto que o empregarmos. Assim, por exemplo, pode ser visto no sentido anatômico, como um músculo (órgão da fala); também, no sentido de idioma; ou, ainda, como chamas (língua de fogo).

O texto de hoje vai se referir à língua no sentido da fala. Adotaremos como ponto de partida o texto sagrado da lavra do apóstolo Tiago.

Confira-se, pois, o texto bíblico:

  Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor. Todos tropeçamos de muitas maneiras. Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito, sendo também capaz de dominar todo o seu corpo. Quando colocamos freios na boca dos cavalos para que eles nos obedeçam, podemos controlar o animal todo. Tomem também como exemplo os navios; embora sejam tão grandes e impelidos por fortes ventos, são dirigidos por um leme muito pequeno, conforme a vontade do piloto. Semelhantemente, a língua é um pequeno órgão do corpo, mas se vangloria de grandes coisas. Vejam como um grande bosque é incendiado por uma simples fagulha. Assim também, a língua é um fogo; é um mundo de iniqüidade. Colocada entre os membros do nosso corpo, contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma incendiada pelo inferno. Toda espécie de animais, aves, répteis e criaturas do mar doma-se e é domada pela espécie humana; a língua, porém, ninguém consegue domar. É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero. Com a língua bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim! Acaso pode sair água doce e água amarga da mesma fonte? Meus irmãos, pode uma figueira produzir azeitonas ou uma videira, figos? Da mesma forma, uma fonte de água salgada não pode produzir água doce.    

Tiago 3:1-12 (NVI)

Estou convencido de que ninguém de nós discute ou alimenta dúvidas sobre a importância de uma boa palavra dita na hora certa.

É inegável, portanto, que uma palavra sábia e sensata proferida no momento adequado tem trazido alento e conforto a muitos corações feridos. Lastimavelmente, produzindo efeito inversamente proporcional, algumas palavras foram devastadoras na vida de muitas pessoas.

A narrativa bíblica está repleta de exemplos de situações em que o uso da língua foi instrumento de bênçãos, mas, também, de maldição.

Cerca de 1000 anos antes de Cristo, já o sábio Salomão, com muita percuciência, exortava:

 Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, o coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre os irmãos.    

Provérbios 6:16-19

Assinale-se, por oportuno, que muitos desses pecados estão umbilicalmente associados à leviandade no uso da língua.

Não é por outra razão que o apóstolo Tiago foi categórico e, mesmo, enfático ao deixar evidenciado que um convertido, ou seja, uma pessoa salva por Cristo Jesus, exercita o domínio próprio, mormente no que se refere ao uso de sua língua. Sim, porque Deus abomina aquele (ou aquela) que semeia contendas entre os irmãos.

Ao longo dos meus anos de vida profissional e pastoral tenho conhecido pessoas, algumas não-crentes, mas, também, outras que são membros de alguma igreja evangélica (inclusive a nossa, obviamente), ávidas por condenar a mentira, o que é elogiável! Entretanto, muitas dessas pessoas, não demonstram a mesma diligência, prudência e ética na conduta cristã no que se refira à divulgação de notícias desairosas sobre alguém.

Calha aqui ressaltar que a mentira não é simplesmente a peremptória negação da verdade. Falar “meias-verdades” também é mentira. Aliás, li algures que “uma meia-verdade é uma mentira inteira”. E mais. Narrar um fato omitindo pontos importantes e esclarecedores, também é mentira.

De conveniência anotar que no ordenamento jurídico pátrio, mais precisamente na seara do Direito Civil, nas relações contratuais, a reserva mental é de tal monta repelida que, quando o agente emite declaração de vontade resguardando, em seu íntimo, o propósito de não atender ou cumprir o fim pretendido, o negócio celebrado se torna inválido, porquanto configurado o dolo ou a simulação.

E o que dizer na esfera espiritual? O que dizer da ética cristã? Os salvos em Cristo não cultivam a prática da “reserva mental” em seus relacionamentos.

O apóstolo Tiago, em sua epístola, tem o escopo de apresentar uma vida cristã prática. Logo, não basta ser um cristão teórico. Não basta ser cheio de Teologia e de outras ciências. É mister ser cheio do Espírito Santo, pois só assim, alcançaremos o controle sobre a língua.  O verdadeiro salvo em Cristo tem a vida transformada. A verdadeira conversão implica mudança de mente (gr. metanoia), mas, também, mudança de rumo, de conduta, de caminho (gr. metamelomai).

Cumpre atentar para o fato de que Tiago, no v. 1, do cap. 3, acima transcrito, não está desestimulando o crente de assumir uma função de liderança em sua Igreja ou em sua comunidade. A boa exegese do texto conduz à compreensão de que, em verdade, o desiderato da exortação é ressaltar que o líder espiritual deve ter cuidado redobrado, porquanto sobre ele incidirá um juízo maior e, nessa exata medida, dele mais se exigirá. Aqui, pode-se ouvir o eco das palavras do próprio Senhor Jesus Cristo, quando asseverou que “a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá”. (Lucas 12:48)

Bem é de se ver, aqueles que ocupam cargo de liderança na comunidade dos salvos, reconhecem que o conhecimento obtido traz junto uma enorme carga de responsabilidade perante Deus. Daí, avulta em importância o cuidado para não tropeçarmos com a língua.

Observe-se que as figuras utilizadas no texto bíblico são significativas, pois se referem (i) ao freio na boca de uma animal (irracional); (ii) a uma fagulha que pode incendiar uma área enorme, com danos inimagináveis; e (iii) a um leme que controla uma grande embarcação marítima, impedindo-a de um naufrágio.  

Todos os pregadores que conheço costumam contar a lição que tem por título: “A Famosa Peneira de Sócrates”. Diz-se que se alguém chegasse diante do filósofo para lhe contar alguma coisa sobre outrem, ele tinha o hábito de indagar se o seu interlocutor (alcaguete, “X-9” ou fofoqueiro) já teria passado a narrativa na peneira (?). Qual peneira? Sócrates, então, passava a descrever.

A historieta se desenrola, mais ou menos assim:

“Um rapaz procurou Sócrates e disse-lhe que precisava contar-lhe algo sobre alguém.

Sócrates ergueu os olhos do livro que estava lendo e perguntou:

- O que você vai me contar já passou pelas três peneiras?

- Três peneiras? - indagou o rapaz.

- Sim! A primeira peneira é a VERDADE. O que você quer me contar dos outros é um fato? Caso tenha ouvido falar, a coisa deve morrer aqui mesmo.

Mas, suponhamos que seja verdade. Deve, então, passar pela segunda peneira: a BONDADE. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo?

Por último, se o que você quer contar é verdade e é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a NECESSIDADE. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta?

Arremata Sócrates:

Se passou pelas três peneiras, conte! Tanto eu, como você e seu irmão iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos e colegas do planeta.

Com efeito, da lição das “três peneiras”, como cristãos genuínos que somos, extraímos preciosíssimas lições: VERDADE, BONDADE e NECESSIDADE. Ou seja, a notícia é verdadeira? É boa? É útil? Traz benefício?

Da narrativa acima transcrita somos levados a concluir que se a notícia do informante não passasse pelo crivo apontado, o filósofo desestimulava o interlocutor a prosseguir.

Da Bíblia “A Mensagem”, extrai-se a seguinte nota:

Tiago usa três metáforas em sua argumentação. Primeiro, a língua, o órgão que transforma palavras em sons, é como o freio na boca de uma cavalo. Sem o freio, o cavalo é quase sempre selvagem e imprevisível. Mas com o freio e rédea você pode fazer que o cavalo faça qualquer coisa. Um cavalo grande um freio pequeno, mas é o freio que conduz o animal.

Segundo, Tiago diz que a língua é como um leme em um navio. Um grande navio no meio do mar está sujeito a enfrentar ventos violentos. Um pequeno leme é colocado no navio — e é o leme, não o vento, que determina o curso da embarcação.

Finalmente, a língua é como uma pequena faísca na floresta. Quando um fogo é deixado em campo aberto ele pode se espalhar, e, antes que você perceba, grandes florestas com árvores imensas podem virar fumaça. E basta um momento de desatenção em uma conversa, ou um momento de raiva, para que a conversa escape do controle, causando grande devastação.

Você acredita nisso? Acredita que havia cristãos nas igrejas do primeiro século que estavam cheios de louvor a Deus, cantavam hinos, confessavam e oravam, e depois nas ruas faziam fofoca, amaldiçoavam e depreciavam os irmãos com suas palavras?

Bem, podemos acreditar porque fazemos o mesmo. É fácil bendizer o Deus que sabemos que nos ama, louvar o Cristo que nos salva, e depois falar com rispidez à mulher que nos irrita ou insultar o homem que nos ultrapassa na rodovia”.[1]

Em suma, lembremo-nos sempre que na lição contida no texto bíblico de Tiago, a mensagem é de que ao controlarmos nossa língua exercendo domínio sobre ela, estaremos controlando, em verdade, a nossa vida. E nem poderia ser diferente, pois um dia seremos chamados a prestar contas de nossas palavras. Atente à exortação do Senhor: “Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado” (Mateus 12:37).

Nesse resumido texto não se tem a ilusão de proclamar perfeição no uso da língua. Isso seria arrematada utopia. Mas, há, sim, o manifesto desejo de expressar à Igreja o ideal de Deus nesse sentido. À propósito, emergem com força as palavras de Paulo, quando disse: “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado, mas um coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Colossenses 3:13 14).

Possa Deus, por meio do Seu Santo Espírito, nos despertar e revigorar na busca do ideal divino para os lavados pelo sangue do Cordeiro!

Deus nos abençoe!

 

Bernardino de Vargas Sobrinho

Pastor Geral — Presidente da Conferência Batista do Sétimo Dia Brasileira 


[1] PETERSON, Eugene H. Bíblia de Estudo “A Mensagem” — Bíblia em linguagem contemporânea. 1ª ed., 2ª reimpressão, São Paulo: Editora Vida, 2018, p. 1.527.

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